Desde a minha primeira gravidez sonhava com o parto normal. Infelizmente sei que tive meu primeiro parto roubado, minha médica indicou a cesárea porque Bernardo estava com uma circular do cordão no pescoço e estava com o dorso para o lado direito, assim meu parto era arriscado, até porque demoraria pelo menos 3 dias… Saí do consultório chorando mas confiante que meu filho ia ficar bem. Na hora da cirurgia me senti mal, enjoada, nem vi Bê nascer direito, ele demorou muitas horas para ir pro quarto pois estava com uma “dificuldadezinha” na respiração.
O pós cirúrgico foi bem difícil, muita dor, desconforto, mas enfim passou, meu bebê era saudável, mas alguma coisa não estava certa, alguma coisa estava faltando. A minha obstetra já me alertou que se eu quisesse um VBAC (parto normal após cesárea) teria que esperar pelo menos 3 anos por causa do risco de ruptura uterina.
Nessa época o “Renascimento do Parto” estava no auge, conhecia poucas pessoas que falavam sobre a humanização do parto. Não tinha coragem de assistir o documentário, tinha uma frustração. Aos poucos fui seguindo os grupos de parto no facebook e outro mundo se abriu pra mim. Num desses grupos eu vi o nome de Dr Thiago Saraiva, resolvi ligar e marcar.
Em 5 minutos de conversa sabia que estava com a pessoa certa.. Foi logo dizendo que o risco de outra cesárea era maior do que uma ruptura. Foi muito além do que eu esperava. Engravidei um tempo depois e durante os 9 meses fui me emponderando cada vez mais. Soube que uma amiga da época de colégio, Mariana, era doula, escrevi pra ela, na primeira reunião tive certeza que queria ela do meu lado nesse processo, muita informação, muitos esclarecimentos, muita evidência científica.
Na busca de informações outra pessoa importantíssima foi Claudia, minha amiga e concunhada, somos inseparáveis assim como nossos maridos que por acaso são irmãos rs. Ela teve uma história igual a minha, e agora estávamos grávidas com uma diferença de 2 semanas, sempre brincávamos que Dr Thiago ia ficar de um quarto para outro porque íamos ter bebê no mesmo dia.
Passei a frequentar as rodas do Boa Hora, a ler relatos de parto, a assistir mil vídeos de parto. Cada vez mais empolgada para o momento mais incrível que uma mulher pode passar.
Eis que chego a 39 semanas e 4 dias (quinta-feira pré carnaval), sem ter sentido nenhum sinal até então, 2 horas da manhã sinto uma contração com um incômodo, volto a dormir, sinto outra e vejo que se passou 10 minutos, volto a dormir e mais uma 10 minutos. Pensei: “oh oh, será? Acho que não”. Decidi não dizer nada a Renato, meu marido. Não consegui mais dormir, baixei um aplicativo que conta o tempo e a intensidade das contrações. Realmente estava ritmada, média de 10 em 10 minutos, dores completamente suportáveis. 5 da manhã fui olhar o instagram e vi uma postagem de Dr Thiago: “Consultório cancelado, bebê chegando”, e com uma observação que ele só tinha conseguido vaga no hospital Português, devido às cesáreas pré-agendadas de carnaval. No mesmo momento recebo uma mensagem de Henrique, meu cunhado, perguntando se poderia levar Arthur (primo-irmão de Bê) pra minha casa, Claudia estava em trabalho de parto com dores insuportáveis. Respondi dizendo o que estava sentindo, ele ficou sem acreditar.
E assim foi até 6:00, Renato acordou e falei a ele que estava com as contrações ritmadas e doloridas, mas que ele podia ir trabalhar porque ia demorar muito ainda. Ele abriu um olhão e saiu correndo pra resolver as coisas do trabalho.
6:30 mando mensagem pra Dr Thiago e ele diz que essa fase poderia demorar muito, fala pra eu tentar descansar e ficar dando notícias.
7:00 vou no banheiro em uma das contrações e vejo um pouco de sangue, ligo pra Mari, ela manda me acalmar e diz que é sinal que o colo está afinando e dilatando. Ela manda eu tomar um banho quente e tentar descansar. Fiz o que eles disseram, o banho quente deu uma boa aliviada no incômodo e fui deitar.
Um tempo depois mandei uma mensagem pra Mari e disse que em toda contração tinha vontade de fazer força. Ela disse que nessa fase não era pra ser assim e mandou eu ir pro Português ser avaliada por dr Thiago, por causa do histórico da minha irmã que teve uma evolução de trabalho de parto rapidíssima. Ainda mandou eu ligar pro Santa Joana e reservar uma vaga, dr Thiago tinha dito a ela que um quarto ia ser liberado a tarde.
Como Renato estava trabalhando, aguardei mais um pouco. Umas 9:00 Mari já tinha me mandado 2 mensagens perguntando se eu já tinha ido, então liguei pra Renato e ele veio correndo pra casa.
As contrações continuavam ritmadas, algumas mais fracas outras bem fortes. Eu insistia que ia demorar muito, que eu ia pro hospital e voltaria pra casa e não queria descer com as malas, minha mãe insistiu e Renato também.
Saímos de casa mais ou menos 10:30, fomos eu, mamãe e Renato. Quando entrei no carro senti uma contração tão forte que chorei. Dei o celular pra minha mãe ficar marcando as contrações, a essa altura não sabia como elas estavam. No caminho minha mãe ficou chocada porque eram de 4 em 4 minutos, falei que devia ser pelo balanço do carro.
Perto das 11:00 chegamos no Português, Renato foi estacionar e fui com minha mãe e dr Thiago pra uma sala, ele fez o toque, deu um risinho e perguntou: “você acha que está com quantos centímetros?” Na hora eu pensei: e eu tô com dilatação?! Ele: “9 cm! Vou te internar agora! Tu é parideira!”
Fiquei estatalada, sem acreditar. Minha mãe ligou pras minhas irmãs, que já estavam no caminho e mandou elas voarem.
Nessa hora eu disse a Dr Thiago que tinha reservado um quarto no Sta Joana e queria ir pra lá, a resposta dele foi: “se a gente pegar um transitozinho você vai parir no carro! Temos que ficar aqui, você vai agorinha pro bloco cirúrgico.”
Essa palavra me arrepiou, eu que sonhava com um parto no quarto, na piscina, com minha familia junto comigo, na hora me vinha aquela frieza de uma sala de cirurgia, não sabia ao certo se fariam intervenções no meu bebê pelo “protocolo do hospital”, o hospital Português não permite parto no apartamento. Enfim comecei a chorar pedindo a Dr Thiago pra irmos pro Santa Joana, ele riu e disse que qualquer grávida estaria feliz de chegar no hospital com 9 cm e que tudo ia ser o mais parecido com meu planejamento.
Renato chegou sem acreditar, eu pedi pra ele insistir com Dr thiago sobre a transferência mas não teve jeito, já chegou uma enfermeira e nos levou pra sala de cirurgia. No caminho vejo minha mãe e minhas irmãs no corredor, todas chorando, de alegria claro. E eu chorando por elas não poderem ficar comigo.
Entro na sala e encontro um ambiente completamente humanizado, luzes baixas, música, todo mundo muito tranquilo. Dr Thiago me apresentou a equipe que nem estava completa, a neonatologista backup ainda estava correndo pra chegar, assim como Camilla (fotógrafa) e Mari. Ele me apresentou também a banqueta de parto e me deixou a vontade pra ir pra maca ou ir direto pra banqueta. A essa altura as contrações eram mais frequentes e dolorosas. Fui direto pra banqueta, Renato sentou atrás de mim, na minha frente ficaram Dr Thiago e Dra Viviane.
Fiquei respirando e comecei a fazer força, na hora já me veio uma vontade enorme de gritar.. E eu gritei, gritei muito. Dra Vivi com sua calma e delicadeza pedia pra eu tentar vocalizar pra direcionar minha força.. Fui tentando. Ela trocou de lugar com Renato, ele já se preparava pra receber Isadora nos braços. Já sentia muita dor e gritava muito e cravava minhas unhas nos braços de Dra Vivi, tadinha deve tá roxa até hoje.
Aos poucos foram chegando, Camilla, dra Ana Carolina e finalmente Mari Bahia.
A partir daí já entrei na partolândia, não lembro de absolutamente tudo que aconteceu. Lembro que eu parecia um bicho gritando muito, Mari veio pra trás de mim, era a vez de eu cravar as unhas nela rsrs.
Me lembro de Mari dizendo no meio de uma contração que eu ia sentir um ardor, o famoso círculo de fogo. Senti o círculo, o quadrado, o retângulo e todas as formas de fogo.. Finalmente nessa contração saiu a cabeça.
De vez em quando olhava pra Renato e ele estava com uma cara de felicidade, ele era emoção pura, já estava com lágrimas nos olhos presenciando aquilo tudo.
Não sei quantas contrações depois, às 11:47 saiu o corpinho dela e para a surpresa de todos continuou com a bolsa intacta durante alguns segundos até se desintegrar nas mãos de Renato. Que emoção!! Minha bebê nascer empelicada. A emoção tomou conta de toda a equipe.
Senti um alívio tão grande, olhei pra Renato e Isadora sem acreditar que eu tinha conseguido, sem acreditar que aquele momento mágico que eu planejei antes mesmo de engravidar estava acontecendo. Renato chorou muito, me entregou Isadora que estava coberta de vérnix e escorregava nos meus braços. Ela chorou forte e foi direto pro peito, mamou como se já tivesse feito aquilo diversas vezes. Eu estava exausta, foi um TP rápido mas muito intenso. Poderia ficar ali horas, mas precisava descansar, deitei em Mari, dra Vivi me deu agua e fui me recuperando aos poucos. Renato cortou o cordão e ela ficou quietinha no colo do papai.
Comecei a sentir um ardor, era a placenta, acho que ela saiu naturalmente após uns 20 minutos.
Renato não tirou Isadora do colo 1 segundo, só quando colocaram na caminha pra levá-la direto para o quarto. Saindo do bloco estavam minha família e amigos no corredor, uma alegria sem fim. Tudo o que eu queria, um parto respeitoso, sem intervenções nem em mim nem em Isadora. Fomos direto para o quarto, depois de algumas horas Renato deu o primeiro banho nela.
E pra completar nossa felicidade, ficamos sabendo que Benicio, meu lindo e amado afilhado, filho de Claudia e Henrique, às 17h chegou ao mundo. Não dá pra acreditar que eles chegaram no mesmo dia, é muita sintonia, coisa divina.
Queria agradecer a todos que fizeram parte deste momento único, Renato, que sempre me apoiou, um exemplo de homem, pai, marido, tudo! Obrigada por me dar as razões da minha vida que são Bernardo e Isadora.
Margarida, Renata, Fernanda não sei o que seria de mim sem vocês.
Dr Thiago e Dra Vivi, que médicos/obstetras como vocês se multipliquem; Mari Bahia, minha doula linda e querida obrigada por tudo o que você me ensinou; Camilla e sua incrível sensibilidade pra captar esses momentos, obrigada.
Agradeço também às amigas que caminharam junto comigo nesse emponderamento, Claudia, Paula, Danielle, July, Carolina
Queria muito que as mulheres tivessem cada vez mais acesso à informação sobre o parto respeitoso, sobre o protagonismo da mulher, sobre humanização. E que vésperas de feriados não lotem maternidades e consequentemente uti’s neonatais.
Demorou muito até minha ficha cair.. Acho que até hoje não processei tudo o que passei. A vontade era passar por tudo de novo pra me dar conta das coisas. Essa experiência marcou nossas vidas para sempre.